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Dopamina x ocitocina: entre a busca pelo próximo prazer e a vontade de permanecer

12 de ago.
3 min de leitura

Você pega o celular só para olhar uma mensagem. Quando percebe, já passou por uma notícia, três vídeos, algumas fotos, uma promoção imperdível e talvez nem se lembre mais do motivo pelo qual pegou o aparelho.

Há sempre alguma coisa nova esperando por nós.

Uma notificação. Uma compra. Um vídeo. Uma curtida. Uma novidade.

Nosso cérebro gosta de novidades — e a dopamina participa intensamente desse processo.

Costumamos ouvir que dopamina é o “hormônio do prazer”, mas essa definição é simplificada demais.

A dopamina é um neurotransmissor fundamental para processos como motivação, aprendizado, movimento e busca por recompensas. Ela nos ajuda a desejar, perseguir objetivos e aprender com aquilo que pode ser recompensador.

É graças a esse sistema que sentimos aquela vontade de conferir se alguém respondeu à mensagem, descobrir o que vem depois no vídeo ou finalmente comprar aquilo que estamos desejando.

O problema não é a dopamina.

O problema pode estar em uma vida construída em torno de estímulos rápidos e sucessivos, na qual mal terminamos uma experiência e já estamos procurando a próxima.

É o prazer da antecipação.

O que vem depois?

E então entra a ocitocina

A ocitocina ficou conhecida popularmente como o “hormônio do amor”. Novamente, a realidade é mais complexa.

Ela participa de processos relacionados ao parto e à amamentação, mas também está envolvida em vínculos sociais, confiança, reconhecimento e diferentes formas de interação afetiva.

Sua liberação pode estar associada ao toque, ao abraço, à proximidade e a experiências de conexão entre pessoas.

Enquanto a dopamina nos ajuda a buscar, a ocitocina pode participar daqueles momentos em que nos sentimos suficientemente seguros para nos conectar.

Talvez esteja aí uma reflexão importante sobre a maneira como estamos vivendo.

Estamos ficando excelentes em buscar. Mas ainda sabemos permanecer?

Vivemos cercados por mecanismos que disputam nossa atenção.

Rolamos a tela.

Trocamos de vídeo.

Ouvimos uma música pela metade.

Respondemos uma mensagem enquanto fazemos outra coisa.

Compramos algo e, pouco tempo depois, já desejamos outra coisa.

Não porque sejamos fracas ou incapazes de controlar nossas vontades. Muitos dos ambientes digitais e comerciais que frequentamos são desenhados justamente para manter nossa atenção e estimular a expectativa da próxima recompensa.

E talvez por isso seja tão importante recuperar experiências que não dependam de velocidade.

Uma conversa sem celular sobre a mesa.

Um abraço demorado.

Preparar alguma coisa com as próprias mãos.

Cozinhar para alguém.

Cuidar de uma planta.

Fazer artesanato.

Sentir um aroma e permanecer alguns segundos ali.

Massagear as próprias mãos ou os próprios pés.

Sentar perto de quem amamos sem precisar preencher cada silêncio.

São experiências simples. Mas elas nos devolvem algo que a lógica do “próximo, próximo, próximo” frequentemente nos tira:

presença.

Não precisamos escolher entre dopamina e ocitocina

Não existe uma guerra dentro do nosso cérebro.

Precisamos da dopamina para levantar da cama, aprender, criar, desejar, realizar projetos e sentir motivação.

E precisamos dos complexos sistemas envolvidos no vínculo e na conexão — entre eles a ocitocina — para construir relações, intimidade e pertencimento.

Talvez a pergunta, portanto, não seja:

“Como diminuir a dopamina e aumentar a ocitocina?”

Talvez seja:

“Quanto da minha vida tem sido dedicado a buscar o próximo estímulo — e quanto tem sido dedicado a realmente viver aquilo que já está acontecendo?”

Há prazeres que nos fazem querer mais.

E há experiências que nos fazem querer ficar.

Talvez uma vida mais inteira precise das duas coisas.

Mas, em um mundo que nos ensina o tempo todo a correr atrás da próxima recompensa, permanecer também pode ser uma escolha.

Uma escolha silenciosa.

Fechar a tela.

Olhar para alguém.

Usar as mãos.

Sentir.

Respirar.

E, por alguns minutos, não procurar nada além do que já está aqui.

 
 
 

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